O Bloqueio de Portugal

Fernando Santos, desde a sua escolha por parte da Federação Portuguesa de Futebol, tem sido um homem globalmente consensual.

Sentia-se que era o homem certo no lugar certo. Não sendo um treinador extraordinário, era um técnico capaz de construir uma equipa, em todos os sentidos. Tinha a experiência de ter treinado os 3 “grandes” do futebol nacional e um enorme crédito na Grécia, pelo que conseguiu em clubes, mas sobretudo na selecção.

Na selecção grega conseguiu lidar com a pesada herança de Otto Rehagel, que nos veio conquistar o Euro 2004 com um plantel parco de recursos, mas com um espírito colectivo digno de guerreiros hercúleos. E deu continuidade ao seu trabalho, sem o mesmo triunfalismo, mas com semelhante eficácia e pragmatismo. E era desses atributos que urgia dotar a Selecção Nacional.

Quando, após a derrota com a Albânia, a FPF pôs fim ao ciclo Paulo Bento e o contratou, estava convicta que Santos traria toda essa aura consigo. E confirmou-o. Começámos a ganhar por “meio a zero” quase sempre, tirando quando não era “a valer”.

Até que chega a fase final do Euro. E com ela, também a triste sina da falta de rasgo, da ineficácia, da displicência de acreditar que os jogos se resolvem por si, que a nossa superior qualidade técnica é suficiente para ganhar.

Fernando Santos tem sido, nestes dois primeiros jogos, vítima disso. Mas também é responsável. Se a sua convocatória foi a mais unânime dos últimos anos, não deixa de ser verdade que nem todas as suas opções para a equipa inicial e substituições nem sempre se compreendem. E não, não é a questão dos laterais: quaisquer 2 dos 4 se aceitariam.

O principal problema tem estado no coração ou cérebro da equipa, o meio-campo. Nomeadamente em João Moutinho e André Gomes.

Não há dúvidas que o primeiro é o mais completo médio português, um jogador na segunda linha dos melhores do Mundo, cuja carreira não o espelha suficientemente. Mas também não as há quanto ao momento de forma menos fulgurante que vive, em consequência de uma lesão que lhe limitou grande parte da época no Mónaco.

Quanto ao jogador do Valência, trata-se de um elemento de elevada potencial e classe futebolística superlativa que, no entanto, além de não manter um rendimento constante ao longo da época e mesmo dentro de um jogo, não revela a garra necessária para ser sempre titular numa Selecção que ambiciona vencer uma competição.

O baixo rendimento e intensidade de ambos tem “engasgado” a fluidez de construção e a qualidade do “último passe”. Esse tem sido, na minha opinião, o principal problema de Portugal.
A verdade é que Moutinho jogou 71’ contra a Islândia e todo o jogo contra a Áustria e Gomes 84’ e 83’ respectivamente.

Jogadores como Adrien e Rafa, que tiveram as melhores épocas da carreira, ainda não tiveram oportunidades – o segundo só entrou aos 89’ do último jogo e o luso-francês ainda não “calçou”. O próprio Renato Sanches, tantas vezes sobrevalorizado durante a época, parece merecer mais minutos.

Por outro lado, não me parece que tenha sido por Danilo ou João Mário que não conseguimos contrariar a Islândia. E se a ideia era dar frescura física – e deixando de parte Ronaldo -, Ricardo Carvalho e o tal João Moutinho (por motivos diferentes) parecem menos “frescos” que os que FS fez, alegadamente, descansar.

Parelelamente, juntar Quaresma a Nani e Ronaldo, sem que CR7, o melhor cabeceador destes três aparecesse mais pelo meio, acaba por anular a utilidade dos cruzamentos do extremo do Besiktas. Além disto, confirma-se o risco que se afigurava a convocação de Éder como único ponta-de-lança para este torneio.

Apesar de tudo isto, conseguimos ser superiores aos nossos adversários. Se foi suficiente? Não. Se podemos vencer – até golear – a Hungria? Claro que sim.

De “calculadora na mão” como habitual, resta-nos acreditar que Fernando Santos chegue às conclusões que façam a equipa melhorar e que a tenhamos a felicidade concretizadora que não temos tido!