Os maus resultados e as pobres exibições do FCP


Depois do empate em Tondela, cresceu a insatisfação na massa adepta do Futebol Clube do Porto. Esse estado de espírito foi o culminar de alguns resultados e exibições muito pouco conseguidas da equipa, que começaram na pré-epoca – derrota 3-0 frente ao PSV – e prosseguiram com o empate aparentemente comprometedor em casa – frente à AS Roma, na 1ª mão do play-off da Liga dos Campeões. 
Mas foi a derrota em Alvalade – contra um concorrente directo ao seu principal objectivo na época - que colocou os adeptos portistas preocupados. Antes do recente empate frente ao último classificado da Liga, já a equipa tinha falhado um arranque positivo na fase de grupos da Champions, frente ao menos reputado adversário de um grupo considerado dos mais acessíveis da competição.
Na minha opinião, o principal responsável por estes problemas advém da construção do plantel:
1. Desequilíbrio dentro/entre sectores
Na baliza, José Sá – que poucos jogos tem de I Liga e nenhum de competições europeias – é a alternativa a Casillas.
O centro da defesa não tem um central com qualidade técnica que o permita criar desequilíbrios com bola controlada e/ou um central rápido, sendo que Boly não parece – pelo menos para já – estar ao nível de um clube grande.
Nas laterais, pelo contrário, há 3 claros titulares – poderá ser complicado ao nível da gestão emocional.
O meio-campo é claramente o sector mais forte da equipa, no entanto tem gente a mais (ver abaixo desenvolvimento do tema).
A nível de extremos, Varela é um bom ala defensivo – pode também jogar a lateral – Corona parece-me um titular indiscutível – mas rende mais do lado esquerdo. Otávio é uma boa adaptação e Jota também pode partir daquela posição, mas são sobretudo 10 e 9,5 respectivamente. Brahimi ainda se está a reformatar. Não há, contudo, um extremo direito de raíz, desequilibrador.
Para as costas do ponta-de-lança há Adrián – Bueno parecia ter muito mais potencial – e Diogo Jota, mas ao nível de n.ºs 9 só há André Silva e Depoitre.

2. Excesso de médios
A Danilo, Rúben Neves, Sérgio Oliveira, André André, Evandro, Herrera, João Teixeira e Óliver podemos ainda somar Otávio, Brahimi e até Diogo Jota, que podem – talvez até rendam mais a 10 – jogar como médios. 8 a 11 médios para 3 posições; isto quando a equipa joga em 4-3-3, pois Nuno Espírito Santo já utilizou algumas vezes o 4-2-4 e, quando assim é, só há 2 vagas.

3. Não aproveitamento de Rúben Neves
Rúben parece, desde há 2 anos, um dos jogadores com maior potencial, mas ainda nenhum treinador lhe proporcionou o enquadramento ideal. Percebe-se que é difícil retirar um trinco que “engole” grande parte do jogo ofensivo adversário, mas acredito que é fundamental potenciar as qualidades deste produto da formação para elevar a qualidade de jogo da equipa: podem ser compatíveis, jogando lado a lado em processo defensivo, subindo mais Danilo em ataque rápido e Rúben quando em ataque organizado.

4. Não venda de Herrera e Brahimi
Ponto prévio: não está em causa a qualidade destes jogadores. Todavia, se Herrera personifica o espírito aguerrido dos Dragões, é um jogador tecnicamente irregular – tanto faz passes e remates disparatados como assistências e golos extraordinários – e confunde o jogo da equipa. Já Brahimi tem um estilo de jogo que não parece ir de encontro com o que o FCP precisa nesta fase complicada da sua história: tem dificuldade em jogar para a equipa, defende mal e define ainda pior. Com alguma ginástica negocial, acredito que ambos poderiam ter sido – bem - vendidos.

5. Falta de extremos esquerdinos
Acima referi a inexistência no plantel de extremos ofensivos que actuem preferencialmente pelo lado direito – Varela é uma opção para congelar resultados. Corona – embora destro – faz bem a posição, mas não é um grande cruzador e ao puxar a bola para o pé esquerdo perde qualidade de definição. É por isso que acho que um – ou dois – esquerdinos seriam muito úteis. Creio que um jogador como Pedro Santos encaixaria na perfeição, isto para não falar em Asensio – habitual suplente no Real Madrid. Mas até Hernâni poderia ser uma boa solução a explorar, mas foi novamente emprestado.

6. Decisões ao nível dos pontas-de-lança
O último factor que gostaria de salientar é a questão dos 9. André Silva foi colocado numa pressão algo prematura, embora o final da época passada e início desta parecessem indiciar que não. De facto, acho que tem valor para ser titular no FCP, mas nem um Ibrahimovic está imune à pressão de 3 campeonatos perdidos para o maior rival. A qualidade está lá, mas vai haver períodos em que não vai resolver jogos, razão pelo qual acredito que devia ter sido pensado como “12º jogador”.
Quanto a Depoitre, parece ter características interessantes – acho que uma equipa grande deve ter sempre um “pinheiro” – mas ainda não vi mais qualidades do que a um Suk – merecia claramente outra oportunidade no plantel, pelo que até prova em contrário foi mais um investimento desajustado.
Além da estrutura do plantel do FCP, há algumas matrizes de jogo sintomáticas de que algo precisa de mudar ou, pelo menos, melhorar no reino do Dragão (voltarei a esse tema em futuras crónicas).
Tem a palavra Nuno Espírito Santo e os seus jogadores, já hoje – em casa – frente ao Boavista.