O Comendador e a raposa mexicana

O Comendador e a raposa mexicana

O futebol português atravessa um momento de tensão inequívoco.
Essas divergências fazem-nos esquecer o encanto dentro das quatro linhas.
Quando temos uma simbologia clubística tão forte, é fácil imaginar estórias, moldar elucubrações inspiradas nesse sentimento que transforma o adepto mais fervoroso numa criancinha que chuta pela primeira vez na bola.
Deixo aqui um devaneio sobre a influencia de Danilo Pereira no F.C Porto:

“Por este inicio de campeonato, o F.C. Porto navega em águas calmas. Uma brisa de bom augúrio sopra nas velas deste barco que não viu na pedreira de Braga, um cabo difícil de ultrapassar.
O almirante Sérgio Conceição lidera com autoridade. Com a sua voz rouca, insiste nesse dogma: Para encontrar tesouros é preciso navegar contra o mundo.
Lutar, arriscar, dar até a última gota de suor, encarar os espaços de jogo como se fossem atóis e dominar nos duelos porque o mundo não acaba aqui.
Danilo Pereira é o seu mais fiel ajudante. Viajou marujo até Itália, Grécia e Holanda, despertou na sua viagem à Madeira e ganhou na Invicta o título de Comendador. O seu talento o levará certamente para outros horizontes, já que está na mira de muitos tubarões.
Por enquanto Danilo ainda vive na nossa realidade, com uma atitude respeitada por todos.
Defende, corte, avança, preenche espaços, apoia o ataque, alivia a defesa, impõe físico, etc.
Muitos papeis desempenha o internacional português, talvez em demasia dirão algumas gaivotas tagarelas.
No seu porto contra o Chaves, o médio caiu de rendimento, sentiu a equipa. A proa enfraqueceu mas não partiu. O barco seguia rumando até aparecer ao longe, uma tempestade vinda do Bósforo.
Na Liga dos Campeões, o Besiktas viu as brechas deixadas pela passagem dos valentes transmontanos e tratou de as atacar. As laterais abriram-se, o casco rompeu. Quaresma cruzou como só ele sabe, Babel parecia um fénix no meio das águias negras, Talisca preparou-se para a abordagem e Cenk Tosun.. Enfim.. Aquela bala de canhão..
Pela primeira vez esta temporada a equipa sofreu dos efeitos secundários da “Danilodepêndencia”, doença semelhante ao escorbuto que os marinheiros bem conhecem. As duas curam-se com uma quantidade não negligenciável de vitamina C. O Comendador tinha perdido fôlego, portanto os criativos não podiam respirar.
Passada a trovoada vinda de Constantinopla, o navio retomou o rumo. O almirante Conceição tomou consciência das degradações e tirou do onze o mosqueteiro Óliver Torres. O espanhol até não esteve mal na última batalha mas precisava de um Danilo sempre em alta para ser o homem do leme. A ideia de jogo passava então pelo “zorro” do porão, fiel capitão sempre disposto em intervir: Héctor Herrera. Se Óliver é tecnicamente um jogador de top, Herrera oferece mais dinamismo vertical.

Herrera traz outra vontade, outro tipo de trabalho. Muitas vezes mais laborioso do que deslumbrante, Herrera precisa de confiança e de se sentir apoiado pelos colegas. Como no “Pequeno Príncipe” de Saint-Exupery, a raposa (mexicana) é difícil de domar em cada indivíduo. Não se vê quando joga bem e é o primeiro culpado quando a equipa perde.

Quando o Comendador precisar de repouso, a viagem do Porto passará forçosamente pelo Golfo do México até porque o único membro do plantel habituado a jogar como pivô solto a frente da defesa central é Diego Reyes. Joga muitas vezes nesta posição com a camisola da Tricolor. Chegou franzino à Portugal antes que a sua experiência espanhola o tornasse elegante.
O almirante Conceição deverá aproveitar as combinações aztecas entre Reyes e Herrera aperfeiçoadas na seleção mexicana para que o navio portista possa encarar novas aventuras.