From Russia with Love


O Peru eliminou a Nova-Zelândia e validou o último bilhete para o Mundial da Rússia. Grandes seleções vão estar ausentes, umas habitualmente assíduas, outras recentemente em progresso. Em referência ao título como um piscar de olho a James Bond, o caminho para Rússia foi cheio de armadilhas nas quais caíram muitas equipas.
Na Europa, o quádruplo campeão do Mundo Itália falhou o apuramento, a última vez tinha sido em 1958. É tempo para Itália repensar o seu "calcio", os clubes de Milão desaparecerem da ribalta, a Juventus é a única equipa que consegue manter o nível de sucesso ao qual nos habituou esse grande país de futebol.
A Holanda ainda está pior. Com o fim da geração Robben, Van Persie, Sneijder, etc. a herança futebolística está numa fase incipiente e insípida. Os Oranje acabaram na terceira posição do grupo, falharam os apuramentos para as duas últimas competições internacionais. O futebol holandês está em declínio.
Países de futebol como Grécia (vencedora do Euro 2004), Turquia e Ucrânia têm equipas a competir na Liga dos Campeões mas não conseguem impulsionar jogadores nacionais para criar uma base sólida e construir seleções concorrenciais.
Os países britânicos que fizeram tão boas figuras no Euro 2016, só vão ser representados por Inglaterra. País de Gales, Irlanda, Irlanda do Norte, Escócia estão a melhorar, no entanto a qualificação para um Mundial é sempre mais complicada devido ao número de lugares qualificativos na zona Europa.
A República Checa, finalista do Euro 1996 - Bulgária, quarta qualificada no Mundial 1994 – Hungria finalista dos Mundiais 1938 e 1954 não conseguem recuperar o prestígio de outros tempos. A aparição de novos concorrentes obriga-os a reconstruir o seu futebol de formação.
A zona África está cada vez mais competitiva devido a dois factos:
- Jogadores com dupla-nacionalidade preferirem competir para o país de origem.
- Estruturas de seleções nacionais tornarem-se mais sérias e profissionais.
Daí as dificuldades para grandes países do futebol africano conseguir um dos 5 passaportes para o Mundial. Por prova, 4 dos 5 países que competiram na última edição no Brasil estão afastados da Copa do Mundo da Rússia: Camarões, Argélia, Costa de Marfim e Gana.
Camarões e Argélia caíram no “grupo da morte”. Os “Leões Indomáveis” vencedores da CAN 2017 não confirmaram. As “Raposas do Deserto” argelinas ainda não encontraram a fórmula para combinar os grandes talentos individuais. O Gana passou através dessa fase de qualificação, os “Black Stars” semifinalistas da edição 2017 da CAN ficaram na terceira posição do grupo atrás de Uganda. A Costa de Marfim foi eliminada em casa no último jogo.
Do continente americano veio outro terramoto, o bicampeão continental Chile não se qualificou para o Mundial no melhor momento de futebol da sua história. Se o Brasil passou sem qualquer problema, o resto da competição foi muito disputado e o afastamento do Chile deve-se justamente a uma diferença de dois golos em relação ao Peru. O Paraguai foi também afastado, confirmando o mau momento que atravessa. Na zona CONCACAF, a surpresa foi a eliminação dos Estados Unidos que não conseguiram atingir o oitavo mundial consecutivo, no entanto o desenvolvimento da MLS e a aposta na formação é o caminho certo para reconstruir uma equipa competitiva porque talentos individuais não faltam.
Uma última nota para a zona asiática onde a aposta da federação chinesa não resultou. O campeonato que teve grande impacto nos mercados de transferências 2015 e 2016 não conseguiu ser a plataforma adequada para que o futebol chinês possa crescer. A evolução esperada baseada na contratação de vedetas estrangeiras para ajudar os jogadores nacionais a progredir não funcionou. A política desportiva parece ter mudado recentemente no âmbito de dar mais oportunidades ao jogador chinês. Se o investimento financeiro futuro for bem gerido, a China não terá dificuldades em chegar ao Mundial 2022 no Qatar.
Por fim e porque o futebol não é tudo, um pensamento para a seleção síria que falhou o apuramento por muito pouco. Nesse país em guerra, a situação política grave teve em breves momentos, na paixão pelo futebol, raros instantes de alívio.
Se a ausência do Mundial para muitos adeptos no mundo parece dramática, não devemos esquecer que para outros, o simples facto de jogar à bola na rua pode ser trágico.